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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Seminário de Nivelamento para a Seleção de Mestrado do PPGH/UFCG

Programação:

09/11/2009

19:00 – Palestra de abertura: Recepção, debate e influências do pensamento de Paul Ricoeur no oficio do historiador

Expositora: MSc. Kyara Maria de Almeida Vieira (UEPB- Doutoranda do PPGH/UFPE)
Local: Centro de Extensão José Farias da Nóbrega – UFCG

10/11/2009

08:00 – 10:00 - PAINEL I: RUPTURAS E PERMANÊNCIAS NO ESTUDO DAS CIDADES

1.1. Sydney Chalhoub uma discussão sobre “Varíola, Vacina, ‘Vacinophobia’”
Expositora: Catarina Buriti de Oliveira- (Mestranda PPGH/UFCG)

1.2. Uma leitura sobre “Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza” a partir do texto de Stella Bresciani
Expositor: Joachin de Melo Azevedo S. Neto - (Mestrando PPGH/UFCG)

Local: sala 15 – Hall da placas - UFCG

10:00 – 12:00 - PAINEL II: Imagens da Cidade: sensibilidades e sociabilidades

2.1. “Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias”
Expositor: Ms. Herri Charriery da Costa Santos (PPGH-UFCG)

2.2. Campina Grande (1930-1950): “Água: desejo, promessa e espetáculo”
Expositor: Deuzimar Matias (Mestrando PPGH/UFCG)

Local: sala 15 – Hall da placas – UFCG

14:00 – 16:00 - PAINEL III: IMAGENS DO OUTRO: ALTERIDADES E IDENTIDADES

3.1. “Quem precisa da identidade?” uma discussão a partir de Stuart Hall
Expositores: MS. Rosemere Olimpio Santana (Doutoranda do PPGH/UFF) e Leonardo Bruno de Farias (Mestrando PPGH/UFCG)

3.2. Imagens de si, imagens do outro: uma leitura a partir de François Hartog
Expositora: Michele Pereira Cordão (Mestranda PPGH/UFCG)

Local: sala 15 – Hall da placas – UFCG

16:00 – 18:00 - PAINEL IV: NARRATIVAS E SUBJETIVIDADES NO TRABALHO DO HISTORIADOR

4.1. Práticas de leitura em Jorge Larrosa
Expositora: Ms. Maria Claudia Cavalcante (PPGH/UFCG)

4.2. Narrativas e representações: “O lugar da morte: poética popular e representação do morrer”
Expositora: Andrea Carla Rodrigues Theotônio (Mestranda PPGH/UFCG)

Local: sala 15 – Hall da placas – UFCG

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

;^D Sucessividades...



Anotações de bordo... Alguém sabe sobre aquela fase da vida em que tudo está dando certo? Pois bem, eu mal estou acreditando que a colheita de tantos frutos está se dando de forma tão farta em minha vida. São compromissos e mais compromissos para os quais estou sendo convidado para arcar, de forma sucessiva. Espero apenas estar a altura dessas responsabilidades e corresponder com as expectativas. Afinal, quando fazemos o que gostamos, sempre hão de aparecerem frestas e até portas abertas. Aproveito o ensejo para convidar os possíveis leitores desse espaço para a conferência que darei, de nivelamento da seleção de mestrado do PPGH/UFCG, a ser realizado nos dias 09 e 10 de novembro. A fala será intitulada Stella Bresciani: uma leitura sobre “Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza”. Também convido os interessados para o mini-curso Modernidade e trauma: história, literatura e engajamento que será realizado durante o I Seminário Nacional de Fontes Documentais em HIstória, entre 01 a 04 de dezembro do corrente ano, organizado pelo PPGH/UFCG, no qual estarei em parceria com o professor Gervácio Aranha discutindo as relações entre literatura e experiencias traumáticas na modernidade. Além disso, só tenho mesmo a agradecer ao público do mini-curso Imagens fotográficas e literárias da Belle Époque carioca, mistrado por mim e os professores Benjamin Montenegro e Cabral Filho durante a Semana de Humanidades da UFCG,que ocorreu entre 20 a 24 de outubro, além dos participantes do GT do mesmo título de mini-curso que será ministrado no Seminário Nacional em História da UFCG. São esses pequenos grandes momentos que me fazem ter a certeza de que valeu a pena ter dedicado minha vida para a história e suas tramas.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

87 anos sem Lima Barreto



Lima Barreto (1881/1922) faria aniversário dia 13 desse mês. Sou suspeito pra tecer qualquer elogio ao escritor, pois é o meu favorito entre os brasileiros. Fadado a boemia, a noites infidáveis de andanças em lugares suspeitos e de baixa reputação, a semanas e semanas de bebedeiras e a uma vida sem reconhecimento, tendo sua candidatura a vaga na ABL ignorada, o único termo que define Lima Barreto é o de escritor maldito. Maldito por ter feito questão de afrontar o culto ao dicionário que os senhores de casaca e picinez, que frequentavam a Livraria Garnier no Rio, chamavam de literatura; maldito por ter sofrido na pele as rotinas sociais da opressão por ser mulato e pobre; maldito por criticar as futilidades e hipocrisias do liberalismo e se afirmar como anarquista, em um tempo que isso era motivo para deportações e exílios; maldito porque se abateu diante da sociedade e buscou refúgio no álcool como forma de evasão, até as últimas consequências. Segue algumas das minhas passagens favoritas que encontro em seu Diário Intímo:

"Eu sou Afonso Henriques de Lima BArreto. tenho vinte e dois anos. Sou filho legítimo de João Henriques de Lima Barreto. Fui aluno da Escola Politécnica. No futuro, escreverei a História da Escravidão Negra no BRasil e sua influência na nossa nacionalidade". (Diário Intímo, p. 33)

"Eu tenho muita simpatia pela gente pobre do Brasil, especialmente pelos de cor, mas não me é possível transformar essa simpatia literária, artística, por assim dizer em vida comum com eles, pelo menos com os que vivo, que, sem reconhecerem a minha superioridade, absolutamente não tem por mim nenhum respeito e nenhum amor que lhes fizesse obedecer cegamente". (Diário Intímo, p. 76)

"Enfim, a minha situação é absolutamente desesperadora, mas não me mato. Quando estiver bem certo de que não encontrarei solução, embarco para Lisboa e vou morrer lá, de miséria, de fome, de qualquer modo" (Diário Intímo, p. 172)

"No dia 30 de agosto de 1917, eu ia para a cidade, quando me senti mal. Tinha levado todo o mês a beber, sobretudo parati (cachaça). Bebedeira sobre bebedeira, declarada ou não. Comendo pouco e dormindo Deus sabe como. Andei porco, imundo" (Diário Intímo, p. 193)

"A segunda vez que estive no hospício de 25 de dezembro de 1919 até a 2 de fevereiro de 1920. Trataram-me bem, mas os malucos, meus companheiros, eram perigosos. Demais, eu me imiscuia muito com eles, o que não aconteceu daquela vez que fiquei de parte" (Diário Intímo, p. 213)

terça-feira, 24 de março de 2009

Dá-lhe Brasil!



Eu poderia fazer um post só para registrar o quanto fiquei contente ao saber que foi mesmo confirmada a participação dos cariocas da banda Matanza no Abril Pró-rock de 2009, para abrir o show da Motorhead. Eu diria que fiquei mais que contente vendo a informação no site do evento, porque a sensação que estou é a que um sonho prestes a se realizar e melhor que isso é fazer parte da mobibilização da old guard de João Pessoa (velhos amigos que nem sempre posso visitar) para nos encontrarmos no show, colocar os papos em dia e tomar todas. Porém, essa semana algo absurdo aconteceu e foi divulgado em cadeia nacional e acho que é algo sério, que merece ser comentado.

"A professora Glaucia Teresinha Souza da Silva, 25 anos foi agredida por uma aluna da Escola Estadual de Ensino Fundamental Bahia, da Capital e foi internada no hospital local com traumatismo craniano. A discussão teria sido motivada por indisciplina da aluna. A agressão ocorreu quando a professora foi até a sala de aula da estudante da 8ª série para buscar a aluna e levá-la à direção, após um desentendimento entre as duas. A adolescente alega ter sido ofendida e admite ter empurrado a professora, que bateu a cabeça na parede, desmaiou e foi encaminhada ao HPS". (http://zerohora.clicrbs.com.br)

Vejam bem... essa semana substitui uma colega que precisava se ausentar da sala de aula por um dia em uma escola particular aqui da cidade. Fiquei estarrecido com o clima de imbecilidade e de mediocridade que impera entre os alunos na sala de aula. Posso resumir que minha grande experiência como "educador" se resumiu a intimidar, para estabelecer o mínimo de ordem na sala de aula, meia dúzia de mauricinhos mimados que acham que porque o papai paga a escola, tem o direito de tirar onda da cara do professor. Deifnitivamente, a universidade não prepara a gente para isso. Não prepara para sermos vítimas de agressões, nem para lidar com marginais da pior estirpe ou com imbecis precoces. Tive muita vontade de, em certos momentos, ter disponível a boa e velha palmatória... Sinceramente, teria sido uma experiência bem mais válida como professor.
O pior é que eu achava, como tinha tido uma experiência até legal como professor de escola pública, que na escola particular iria ser melhor ainda, em se tratando de pessoas que deveriam corresponder, se dedicando as aulas, aos esforços dos pais em custear-lhes os estudos. Mas na escola pública, as pessoas são mais tranquilas, porque muitas vindo de origens sociais humildes, se esforçam, se agarram aquelas aulas como se fosse mesmo algo que lhes vai proporcionar mais oportunidades de melhorarem de vida. Na escola particular, ocorre o contrário... A diretoria, por querer manter seus cofres cheios, acoberta toda canalhice dos alunos e estes, bem adaptados com a mentalidade pequeno-burguesa de que o dinheiro compra tudo, em sua grande maioria fazem questão de testar os limites psicológicos do professor, como quem diz: "sou eu que pago mesmo".
No caso dessa aberração da Bahia, a quem não vale nem a pena chamar de aluna, ela já está assistindo aulas novamente na mesma escola. No mínimo, deveria estar prestando serviços comunitários e indo ver um psiquiatra regularmente, porque uma pessoa dessa, apesar da pouca idade, só pode ser doente mental. No caso, dos imbecis mimadinhos das escolas particulares o que digo é que vão ter que achar outro pra encher o saco. Como lhes disse em sala de aula, não passei 6 anos da minha vida para ficar tendo meus limites testados por cinco ou seis bucefálos masturbadores. E pensar que é a essa geração idiota, burra e asquerosa que chamam de "futuro do BRasil"... Nossa, é, realmente, um futuro bem promissor.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Apontamentos sobre o sionismo judaico




Perambulando pela net achei um blog que gostei muito, chamado Caderno Aquariano, que é escrito pela artista plástica Martha Pires. Bom, me chamou a atenção dos seus escritos poéticos sobre a atual situação dos palestinos. Claro, tem a o apelo religioso, sobretudo cristão, de que a poeta se vale para clamar pelo fim dessa verdadeira limpeza etníca que os judeus estão empreendendo contra os mulçumanos, mas também não deixa de ser um clamor sincero.
Desde muito tempo e sobretudo, do começo até o meado do século 20, com os desfechos da II Guerra, os judeus foram considerados e tratados como o câncer do mundo ocidental. As políticas nazistas culminaram na morte de 6 milhões de judeus nos campos de concentração e, após o fim da guerra, o holocausto serviu para embasar um discurso sionista, cujo cerne é o direito dos judeus de terem um Estado próprio e de se defenderem militarmente. Até então, desde a criação do Estado de Israel, os judeus se negam a reconhecer a Palestina enquanto um Estado e realizam manobras políticas e militares de contenção social quem em muito se assemelham as que foram praticadas contra eles pelos nazistas.
Sobretudo com o apoio dos Estados UNidos, que fornece armas e tecnologia militar, Israel tem sido bem sucedido em suas iniciativas que remetem a apenas um objetivo: realizar uma limpeza etnica contra as minorias mulçumanas na região para poder exercer seu poder hegemonicamente. Claro, essas práticas remetem a outras de resistência por parte dos palestinos e aí vale de tudo: terrorismo, atentados com carros bombas, foguetes caseiros... o que fico aqui pensando é que, com certeza, nenhum desses revides tem as dimensões brutais e desumanas das incursões judeias ao território que engloba a faixa de Gaza: um pedaço de deserto que para os dois povos é sagrado. Além dessa brutalidade militar, existem as midíaticas e as do silenciamento, impostas por uma mídia ocidental que agora coloca os mulçumanos como câncer da humanidade e que não disfarça sua simpatia pela causa sionista.
Bom, esse post é apenas para expressar que, mesmo não possuindo tanta espiritualidade como a autora do blog que citei no início do texto, também acho indignante o que está acontecendo na Faixa de Gaza. As vítimas palestinas tem sido compostas de crianças, velhos, mulheres... pessoas indefesas diante dos tanques, bombardeios e dos M16 dos judeus. Estanos assistindo um novo holocausto, em pleno século 21, negligenciado por esse circo cheio de palhaços que se tornou a ONU e tudo isso no conforto da poltrona da sala.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Férias, até que enfim e duas ou três coisas que sei sobre Ginzburg



Férias, vacations, عطلة, vacaciones, vacanza,каникулы, Urlaub... Seja lá qual for a língua deve ser legal pronunciar essa palavra, principalmente quando ela se torna uma realidade tangível. Depois de 1 ano de neuras, a primeira etapa do mestrado terminou e tirando dois artigos e 1 projeto pra ser entregue em fevereiro, coisa que tirarei de letra, tudo segue muito bem. Claro, tirando também o encerramento do mestrado, dado por um famoso historiador, que na minha opinião deferiu opiniões bastante incoerentes e errôneas sobre a produção intelectual do Carlo Ginzburg, autor que, das duas uma: ou ele desconhece completamente ou fez uma leitura silenciadora. Ao menos, contestei sua leitura e esse momento, valeu por ter ficado ali, cerca de duas horas, aguentando escutar, em muitas passagens, verdadeiros absurdos teóricos.
Algumas dicas para quem quer se arriscar a ler Ginzburg, para que, por favor, não saiam propagando as equivocadas opiniões do pós-moderno mor da historiografia brasileira:
1. O fato de O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição ter vendido no mundo todo e ter uma crítica no prefácio a Foucault não invalida essa obra, alicerçada em uma excelente escrita e pesquisa criteriosa, que muito tem a ensinar aos historiadores contemporâneos, mesmo quase 30 anos depois de sua primeira publicação... se for por isso, para usar uma expressão cara a François Dosse, Foucault também vende como pãezinhos.
2. Ao contrário do que disse o grande professor, que "Ginzburg era contraditório por ser contra a ficção na história e escrever como um romancista", quero que alguém me mostre em qualquer livro, pelo menos dos publicados em português, em que algum momento Ginzburg se diz contra a ficção. Muito pelo contrário, consigo detectar vários trechos, inclusive em Um desafio de Sthendal aos historiadores, publicado no Fio e os Rastros: verdadeiro, falso, fictício, nos quais Ginzburg, inclusive, diz que o discurso direto livre, técnica dos romancistas, tem ajudado os historiadores de modo que eles nem imaginam e que Sthendal, enquanto ficcionista, fez o que muitos historiadores irão tentar a vida toda e não irão conseguir realizar: uma crõnica de costumes. Há muitos e muitos trechos, sobretudo também em Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história que se referem as contribuições da teoria literária e das artes para o ofício do historiador.
3. A questão é que Ginzburg parte de uma premissa de que a retórica, na historiografia, não é incompatível com a noção de prova. Isso com base em uma tradição que remete a Aristóteles na Grécia Antiga. Falando em Grécia Antiga, me lembro da metáfora do doce usada por Sócrates para refutar os céticos: se colocam duas taças de doce em uma mesa, ambas taças com doce mesmo e dois sujeitos provam as taças. Se um disser que o doce está doce e outro disser que o doce está salgado, esse precisa ir se tratar.
4. Outra coisa delicada presente na fala do professor: se ele abriu sua palavra dizendo que as verdades nas ciências humanas eram falsas, meros discursos, com base no Nietzsche, para o qual a verdade é um batalhão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos, já estava estabelecendo seu estatuto de verdade. Então, tudo que ele falou sobre ciências humanas e Ginzburg foram mentiras e se ele disser que são verdades, tá se contradizendo.
Bom, vou articular essas críticas de modo mais sistemático em um artigo, para o ano que vem, que por hora, penso em intitulá-lo: Equívocos e limites da arte de inventar o passado. Agora, penso em desfrutar das férias com a famosa tríade que vem movimentando e alegrando gerações e gerações. De olho também no Rio... para as férias de meio de ano, de 2009, segundo o carioca londrino JC, não sei se é porque estava bêbado, mas disse-me que caso eu vá, tem um barraco para se tomar umas há 500 metros da praia, no litoral sul do Rio: sem favelas, neuras e essas coisas todas, embora eu tenha que ficar uma semana perto da Av. Central, metendo a cara em papéis velhos. No fim, só posso concluir: é bom ter amigos e melhor ainda, ter escolhido ser historiador, pois cada dia que passa, fora as crises existenciais (eheheheeh), vejo que essa profissão me realiza e já começa a possibilitar ótimos momentos!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Enterrem meu coração na curva do rio ou uma história de resistência



Dee Brown é um historiador norte-americano e, embora nunca tenha conseguido emprego como professor, conseguindo, no máximo, ser bibliotecário, é um dos raros bons historiadores norte-americanos que pesquisam sobre a história do país. Realmente, em um país com trajetórias tão podres ao longo do tempo como os Estados Unidos, os bons pesquisadores, pelo menos na historiografia, enveredam para estudar a história de outros povos, como é o caso do Robert Darnton, o historiador norte-americano da Revolução Francesa. Não é toa que o país seja o principal celebrador das teses ditas pós-modernas, que defendem essa fuga irresponsável da história, baseados na idéia de que a história é apenas mais um discurso... É muito cômodo acreditar nisso, quando se vem de uma sociedade que construiu um império as custas de vários crimes contra a humanidade.
Dee Brown escreveu Bury My Heart at Wounded Knee: An Indian History of the American West (1970), (Enterrem meu coração na curva do rio: uma história dos índios do Oeste Americano), e lembro que tive meu primeiro contato com esta obra por volta dos 14 anos, quando o achei na biblioteca de meu pai. A princípio, me chamaram a atenção as ilustrações que são compostas por fotos dos grandes chefes indígenas norte-americanos: Cochise, Geronimo, Nuvem Vermelha, Cavalo Doido, Victorio Touro Sentado, Galha e de vários massacres que aconteceram nas reservas. Fazendo algumas incursões em termos de leitura, logo me encantei também pelas narrativas do autor sobre os conflitos que houveram entre indíos e o exército federal dos Estados Unidos, que destacam a altivez, o orgulho e a nobreza dos guerreiros indígenas.
Recentemente, estive folheando a obra novamente, depois de 11 anos e na condição de historiador. Agora o olhar é muito diferente do que lançei naquela época. Dee Brown realiza uma história bem documentada e pesquisada, com depoimentos, biografias, iconografias e uma ampla revisão da bibliografia sobre o tema. A história oficial, dos brancos, constrói a imagem dos indíos como selvagens, assassinos e responsáveis por vários massacres, inclusive o de Little Big Horn, no qual morreu o general Custer, um genocida que trucidou tribos inteiras, incluindo mulheres, crianças e velhos. Na verdade, Brown mostra o outro ponto de vista. Os indíos estavam defendendo a sua etnia e suas terras, que eram alvo de cobiça por causa dos veios de ouro e por ser estrategicamente bem situada para a implantação de ferrovias. Essa é a história de uma resistência e da sistematização da opressão contra os nativos, que confinados em reservas, tinha que ser submeter a religião cristã, a rações diárias de comida e a doenças causadas pela insalubridade, como coqueluches, impaludismos, sarampo e gripes. A lógica é que o governo percebeu que era muito dispendioso enfrentar os indíos em conflitos armados e passou a usar subterfúgios para uma aniquilação gradativa, realizada aos poucos. Recentemente, o filme foi lançado aqui e ontém eu o assisti. È uma película fantástica, tocante e fidedigna ao conteúdo do livro. Não darei detalhes sobre o filme, assistam e tirem suas conclusões. Uma das cenas que mais revoltam é o assassinato de Touro Sentado, já velho, que é executado pelas tropas do governo na frente de toda a família. Esses crimes precisam ser lembrados, esses silêncios que permeiam a história do ocidente. E aos historiadores que vem sendo criticados por se preocuparem em a fazerem por esses medíocres profetas da pós-modernidade, que querem desarmar a história, fazer da história seu divã para tentar resolver suas neuras sexuais e esvaziar a prática historiográfica de suas implicações éticas e epistêmicas, aconselho que resistam também a esse oportunismo retórico.


Um desses gurús do discurso, publicou mais recentemente o texto "Por uma leitura safada deThompson", uma crítica a um importante historiador inglês que desde o começo disse estar comprometido com essa denominado história vista de baixo, ou seja, a história social.
Essa idéia de "leitura safada", segundo Durval Muniz, autor do texto, baseia-se na premissa de que os autores devem ser dessacralizados, na esteira do que afirmou Roland Barthes. Confrontei essa sua afirmação com outro texto seu, chamado "A história em jogo: a contribuição de Michel Foucault no campo da historiografia", e é impossível levar a sério essa idéia de leitura safada de Thompson, pois munido de uma série de argumentos que beiram ao irracionalismo estético, Durval Muniz ergue, ao mesmo tempo, um altar de veneração e um pódio para coroar seu campeão favorito, ao passo que para os outros competidores, derrotados, só restaria aplaudir o filósofo Michel Foucault, pois ele é, segundo o autor,
“da genealogia dos craques, dos fora de série, daqueles que, mesmo quando são nosso adversário, só nos resta sentar e aplaudir”.

Isso significa constatar que toda essa ousadia dessacralizadora, reivindicada por Durval Muniz, tem uma conotação e limitação mais pessoal, do que propriamente epistêmica. Seus ídolos teóricos, caso existisse alguma coerência em sua fala, deveriam então ser os primeiros a serem submetidos a essa sanha desconstrucionista, a esse exercício intelectual violador. Quem quiser ganhar visibilidade através de polêmicas sensacionalistas, que arque com as conseqüências daquilo que falou e tenha o mínimo de coerência com suas próprias posições. Mais uma vez, percebe-se que Durval Muniz é tão tendencioso e silenciador, em relação à historiografia que não condiz com seus recortes ou prioridades, quanto aqueles que acusa de quererem aparecer como donos da verdade, de agirem como crianças emburradas que, sendo donas da bola, só permitem entrar no jogo quem elas escolhem.
Nesse sentido, esse relativismo cético termina por desembocar em sua principal fragilidade: a de não possuir em eixo seguro que lhe proporcione consistência. Fadado a infidáveis contradições, tais quais as de Hayden White, dos desconstrucionistas radicais ou do autor citado, adquire um tom irresponsável, que ao leitor mais atento, pode ser revelado simplesmente por uma confrontação de textos na qual se meça o que foi dito/especulado teoricamente e o que se tem praticado. É preciso, realmente, refutar esse ceticismo, dito pós-moderno, discutir seus limites políticos, morais e cognitivos, como colocou Ginzburg, e perceber que o que norteia os passos do historiador nas trevas que repousam o passado, é antes de tudo uma busca cognitiva, do que uma poética do absurdo, que talvez esteja mais a favor de uma safadeza retórica do que, propriamente, leituras safadas.


quinta-feira, 8 de maio de 2008

O que faz do brasil, Brasil?


O que faz do brasil Brasil? Essa é a pergunta que Roberto DaMatta se propõe a responder e que o professor da disciplina "Cotidiano e lazer nas cidades", no mestrado, propôs que eu e os outros estimados colegas respondêssemos. O olhar antropológico de R. DaMatta sobre esta questão possue uma maior autonomia em relação aos questionamentos históricos que vem a minha cabeça quando encaro o título de seu texto. A idéia que de que a história social oferece uma visão “exclusivamente oficial e bem-comportada” (DaMatta, 2001, p.13-4) sobre essa questão da identidade nacional me fez remeter aquela velha discussão de que as vezes um diálogo entre historiadores e sociólogos parece um diálogo entre surdos mudos.

Pensar nas sensibilidades que conseguem untar em torno de alguns valores em comum, como o gosto pelo carnaval, futebol, praias, samba, etc. toda uma nação vasta, fragmentada e heterogênea em termos culturais como o Brasil é realmente algo complexo. Para mim, espécime de desajustado cultural então, que cultiva um verdadeiro pavor de carnavais, torcidas organizadas, exposição direta ao sol e a grupos musicais com mas de 5 integrantes ser brasileiro não se restringe a alguns paradigmas estabelecidos por um comportamento massificado.

Para DaMatta, ter “gosto pelas artes plásticas, visita sistemática a museus, amor pela música clássica, na falta de riso nas anedotas, no horror ao carnaval e ao futebol “ (DaMatta, 2001, p. 18) são padrões estranhos e incoerentes com a cultura e identidade brasileira. Nesse sentido, se o que nos faz sermos brasileiros é consumir cultura massificada, ter asco da história, estar sempre rindo, indo a estádios e bailes carnavalescos não precisaríamos de um nativo para falar isso, pois vários pensadores eurocêntricos já nos descrevem assim no dito velho mundo.

Para mim, ser brasileiro tem uma dimensão mais aberta... Ser brasileiro é o que me possibilita tomar um café forte ao acordar, discutir cultura francesa com colegas de ofício a tarde, almoçar uma feijoada e a noite tomar uma cerveja em um show de rock cantado em inglês. Em outros termos, é poder desfrutar de um cosmopolitismo sadio, realizador, com as vantagens e delícias de nossa cultura, mas sem me submeter a estereótipos que por mais nativistas e bem intencionados que possam parecer, espécie de auto-ajuda intelectual, acabam reproduzindo uma construção determinista e muito fechada sobre a identidade que em nome de um popularismo ingênuo, transforma estereótipos negativos em virtudes.

REFERÊNCIAS:

DAMATTA, Roberto. O que faz do brasil Brasil?. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Algumas considerações sobre o paradigma indiciário de Ginzburg


Então, amiguinhos (as), estão surpresos? Realmente, não se trata de uma resenha de um show ou uma entrevista de alguma banda de rock. Na verdade, esse texto que escrevi é parte dos estudos que fiz para concorrer a seleção de mestrado em História da UFCG. Se por acaso esqueci de mencionar em algum momento que sou graduado em História e louco de paixão pela minha área, estejam avisados. Por isso, se tem espaço aqui pra bebedeiras, devaneios e outras coisas sem muito comprometimento, também haveria de ter para maiores reflexões. No caso, parto das considerações tecidas por esse senhor italiano de grossas sobrancelhas e ar sério, para tentar falar sobre um saber que acompanha os homens desde os tempos mais remotos:

No texto Sinais: raízes de um paradigma indiciário (1989), o historiador italiano Carlo Ginzburg discorre sobre a construção de um paradigma, no âmbito das Ciências Humanas, a partir do século XIX, que pode sugerir novas possibilidades teóricas e metodológicas diante da polarização entre racionalismo e irracionalismo, ou seja, mimeses e anti-mimeses nas ciências humanas.

A partir de artigos de Ivan Lermolieff (pseudônimo do crítico italiano de arte Giovanni Morelli) publicados em uma revista alemã, por volta de 1874 a 1876, Ginzburg atenta para as propostas metodológicas de analise das pinturas aconselhadas por Morelli, que despertaram vários debates e estabeleceram critérios seguros para se distinguir entre uma obra original e uma cópia falsificada dos quadros dos mestres da pintura italiana.

O método de Morelli para se distinguir originais e cópias, partia do pressuposto de que “é preciso não se basear, como normalmente se faz, em características mais vistosas, portanto mais facilmente imitáveis dos quadros” (p. 144), mas atentar para indícios, “os pormenores mais negligenciáveis e menos influenciados pelas características da escola a que o pintor pertencia” (p. 144). Na época, O método de Morelli auxiliou a nomear várias obras de mestres da pintura européia não assinadas e a uma catalogação mais precisa dessas obras, porém, foi, posteriormente, bastante criticado nos círculos de arte pela forma determinista que aparentava para alguns. Ginzburg, apesar de também ver que o método de Morelli traduz uma postura moderna em relação à arte, busca por implicações mais profundas, de ordem filológica, encontradas no método morelliano.

Nesse sentido, partindo das considerações de Wind sobre as semelhanças entre o método indiciário de Morelli e a postura detetivesca do personagem de romances policiais Sherlock Holmes, criado pelo inglês Arthur Conan Doyle, Ginzburg considera que “o conhecedor de arte é comparável ao detetive que descobre o autor do crime (do quadro) baseado em indícios imperceptíveis para a maioria” (p. 145). Ainda seguindo os rastros do raciocínio de Wind, Ginzburg chega ao terceiro autor que completaria a tríade responsável por uma sofisticação intelectual de um paradigma que encontra suas origens em períodos mais remotos que a do fim do século XIX: trata-se do pai da psicanálise Freud.

Para Ginzburg, Freud foi influenciado “numa fase muito anterior a descoberta da psicanálise” (p. 148) pelo método morelliano, através da leitura de seus textos sobre arte italiana, se apropriando desse método para desenvolver o gosto pela analise interpretativa de resíduos, aspectos periféricos, porém reveladores das personalidades. “Desse modo, pormenores normalmente considerados sem importância, ou até triviais ‘baixos’, forneciam a chave para aceder aos produtos mais elevados do espírito” (p. 150).

Nesse caso, o eixo que interliga a tríade Morelli, Holmes e Freud é a assertiva de que as possibilidades de elucidação em torno de uma problemática são ampliadas na medida em que o investigador seja da arte, da criminologia ou psique, esteja atento para sinais ou pistas que são deixadas pelo seu objeto: “pistas: mais precisamente sintomas (no caso de Freud), indícios (no caso de Holmes) e signos pictóricos (no caso de Morelli)” (p. 150). Dentro desse prisma, existia uma relação mais reveladora da afinidade entre três intelectuais que atuaram em esferas do saber diferentes: apesar de se destacarem no âmbito da história da arte (Morelli), da psicanálise (Freud) e literatura (Conan Doyle), os três autores tiveram em comum a graduação em cursos de Medicina. Nesse sentido, o paradigma indiciário nada é mais que uma extensão do “modelo da semiótica médica: a disciplina que permite diagnosticar as doenças inacessíveis à observação direta na base de sintomas superficiais, às vezes irrelevantes aos olhos do leigo” (p. 151).

Porém, para Ginzburg, apesar do paradigma indiciário nas ciências humanas ter sido gestado a partir do método semiótico aplicada nos pacientes pelos médicos, que buscam precisão no veredicto sobre a saúde do paciente a partir dos sintomas apresentados pelo mesmo, o método indiciário acompanha os homens desde os tempos mais imemoriais da história, ou seja, desde quando o homem “aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pêlos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais” (p. 151).

Historicizando essa prática do saber cognoscitivo, Ginzburg chega até o contexto em que a escrita foi inventada, na Mesopotâmia, quando a necessidade de se transmitirem saberes ganhou dimensões materiais. É nesse sentido que existe uma ponte entre o pensamento antigo e o moderno, na medida em que é detectado em contextos sociais e históricos tão distantes “uma atitude orientada para a analise de casos individuais, reconstruíveis somente através de pistas, sintomas, indícios” (p. 154). .

Discutindo também a arte indiciária no contexto da Grécia antiga, o autor atenta para a transformação significativa, que desembocará em uma maior sofisticação, dessa forma de pensamento, na medida em que, na Grécia, “o corpo, a linguagem e a história dos homens foram submetidos pela primeira vez a uma investigação sem preconceitos, que por principio excluía a intervenção divina” (p. 155).

O saber conjetural, exercido por vários segmentos sociais, que o aplicavam para solucionar os problemas cotidianos e exercerem ofícios específicos, levam Ginzburg a discutir o lugar ocupado pelo historiador no âmbito da ciência moderna, a partir de Galileu. Para o autor, a atitude cognoscitiva do historiador é individualizante, diferente do método epistemológico generalizante, das ciências naturais, apresentando semelhanças com a postura do médico diante do paciente que “utiliza os quadros nosográficos para analisar o mal especifico de cada doente. E, como o do médico, o conhecimento histórico é indireto, indiciário, conjetural” (p.157).

As tentativas de se equiparar às ciências humanas as naturais, são palco para diversas crises de ordem filológicas. Ginzburg também atenta para a questão de que o saber individualizante foi quase sempre aplicado de forma antropocêntrica e etnocêntrica quando destinado a sistematizar o controle social na aurora das sociedades tecnocráticas. É nesse contexto, a partir do século XVIII, que ocorre uma apropriação dos saberes populares por parte da burguesia, desembocando em um processo de aculturação, cujo maior símbolo é a Enciclopédia de Diderot e D´Alembert.

Comparando a forma que o paradigma indiciário adquire na modernidade com a forma de um tapete, cujos fios epistemológicos entrecruzam-se formando figuras interligando o antigo e o moderno que constroem essa aparência mórfica para o saber indiciário, Ginzburg começa a “desfiar” esse tapete, pois “uma coisa é analisar pegadas, astros, fezes (...), catarros, córneas, pulsações, campos de neve ou cinzas de cigarro. Outra é analisar escritas, pinturas ou discursos” (p. 171). A partir daí, Ginzburg recorre a diversos conceitos cunhados por Marx para pensar os modos que o saber individualizante foram usados pela ordem dominante, durante a consolidação do capitalismo industrial, para dar inicio a “criminalização da luta de classes”, colocando em prática um “projeto geral, mais ou menos consciente, de controle generalizado e sutil sobre a sociedade” (p. 173).

Assim, nesse contexto, surgem os métodos policiais dedutivos como a elaboração dos retratos falados, e os de identificação individualizante, como a analise das impressões digitais que sintetizam o intuito coercitivo desse projeto, justificado por um discurso científico, pois, durante o colonialismo, “nas colônias britânicas, e não somente na Índia: os nativos eram analfabetos, litigiosos, astutos, mentirosos e, aos olhos de um europeu, todos iguais entre si” (p. 176). Ginzburg procura assim, partindo de exemplos históricos, evidenciar o caráter etnocêntrico com que o saber indiciário foi institucionalizado e exercido pela ordem burguesa.

Finalizando suas reflexões com uma indagação sobre a flexibilidade do paradigma indiciário, Ginzburg considera que o saber indiciário é volúvel, tendo de adaptar-se a cada circunstância em que é aplicado, seja na analise morelliana da arte, nas elucidações detetivescas de Holmes, na interpretação analítica da psique de Freud, durante a consolidação da ordem burguesa ou no gesto do caçador que quer encontrar sua presa seguindo suas pegadas em uma floresta. Assim, a intuição indiciária “une estreitamente o animal homem as outras espécies animais” (p. 179).

Referência:

GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. In: Mitos, Emblemas, Sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. (p. 143-80).