quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Enterrem meu coração na curva do rio ou uma história de resistência



Dee Brown é um historiador norte-americano e, embora nunca tenha conseguido emprego como professor, conseguindo, no máximo, ser bibliotecário, é um dos raros bons historiadores norte-americanos que pesquisam sobre a história do país. Realmente, em um país com trajetórias tão podres ao longo do tempo como os Estados Unidos, os bons pesquisadores, pelo menos na historiografia, enveredam para estudar a história de outros povos, como é o caso do Robert Darnton, o historiador norte-americano da Revolução Francesa. Não é toa que o país seja o principal celebrador das teses ditas pós-modernas, que defendem essa fuga irresponsável da história, baseados na idéia de que a história é apenas mais um discurso... É muito cômodo acreditar nisso, quando se vem de uma sociedade que construiu um império as custas de vários crimes contra a humanidade.
Dee Brown escreveu Bury My Heart at Wounded Knee: An Indian History of the American West (1970), (Enterrem meu coração na curva do rio: uma história dos índios do Oeste Americano), e lembro que tive meu primeiro contato com esta obra por volta dos 14 anos, quando o achei na biblioteca de meu pai. A princípio, me chamaram a atenção as ilustrações que são compostas por fotos dos grandes chefes indígenas norte-americanos: Cochise, Geronimo, Nuvem Vermelha, Cavalo Doido, Victorio Touro Sentado, Galha e de vários massacres que aconteceram nas reservas. Fazendo algumas incursões em termos de leitura, logo me encantei também pelas narrativas do autor sobre os conflitos que houveram entre indíos e o exército federal dos Estados Unidos, que destacam a altivez, o orgulho e a nobreza dos guerreiros indígenas.
Recentemente, estive folheando a obra novamente, depois de 11 anos e na condição de historiador. Agora o olhar é muito diferente do que lançei naquela época. Dee Brown realiza uma história bem documentada e pesquisada, com depoimentos, biografias, iconografias e uma ampla revisão da bibliografia sobre o tema. A história oficial, dos brancos, constrói a imagem dos indíos como selvagens, assassinos e responsáveis por vários massacres, inclusive o de Little Big Horn, no qual morreu o general Custer, um genocida que trucidou tribos inteiras, incluindo mulheres, crianças e velhos. Na verdade, Brown mostra o outro ponto de vista. Os indíos estavam defendendo a sua etnia e suas terras, que eram alvo de cobiça por causa dos veios de ouro e por ser estrategicamente bem situada para a implantação de ferrovias. Essa é a história de uma resistência e da sistematização da opressão contra os nativos, que confinados em reservas, tinha que ser submeter a religião cristã, a rações diárias de comida e a doenças causadas pela insalubridade, como coqueluches, impaludismos, sarampo e gripes. A lógica é que o governo percebeu que era muito dispendioso enfrentar os indíos em conflitos armados e passou a usar subterfúgios para uma aniquilação gradativa, realizada aos poucos. Recentemente, o filme foi lançado aqui e ontém eu o assisti. È uma película fantástica, tocante e fidedigna ao conteúdo do livro. Não darei detalhes sobre o filme, assistam e tirem suas conclusões. Uma das cenas que mais revoltam é o assassinato de Touro Sentado, já velho, que é executado pelas tropas do governo na frente de toda a família. Esses crimes precisam ser lembrados, esses silêncios que permeiam a história do ocidente. E aos historiadores que vem sendo criticados por se preocuparem em a fazerem por esses medíocres profetas da pós-modernidade, que querem desarmar a história, fazer da história seu divã para tentar resolver suas neuras sexuais e esvaziar a prática historiográfica de suas implicações éticas e epistêmicas, aconselho que resistam também a esse oportunismo retórico.


Um desses gurús do discurso, publicou mais recentemente o texto "Por uma leitura safada deThompson", uma crítica a um importante historiador inglês que desde o começo disse estar comprometido com essa denominado história vista de baixo, ou seja, a história social.
Essa idéia de "leitura safada", segundo Durval Muniz, autor do texto, baseia-se na premissa de que os autores devem ser dessacralizados, na esteira do que afirmou Roland Barthes. Confrontei essa sua afirmação com outro texto seu, chamado "A história em jogo: a contribuição de Michel Foucault no campo da historiografia", e é impossível levar a sério essa idéia de leitura safada de Thompson, pois munido de uma série de argumentos que beiram ao irracionalismo estético, Durval Muniz ergue, ao mesmo tempo, um altar de veneração e um pódio para coroar seu campeão favorito, ao passo que para os outros competidores, derrotados, só restaria aplaudir o filósofo Michel Foucault, pois ele é, segundo o autor,
“da genealogia dos craques, dos fora de série, daqueles que, mesmo quando são nosso adversário, só nos resta sentar e aplaudir”.

Isso significa constatar que toda essa ousadia dessacralizadora, reivindicada por Durval Muniz, tem uma conotação e limitação mais pessoal, do que propriamente epistêmica. Seus ídolos teóricos, caso existisse alguma coerência em sua fala, deveriam então ser os primeiros a serem submetidos a essa sanha desconstrucionista, a esse exercício intelectual violador. Quem quiser ganhar visibilidade através de polêmicas sensacionalistas, que arque com as conseqüências daquilo que falou e tenha o mínimo de coerência com suas próprias posições. Mais uma vez, percebe-se que Durval Muniz é tão tendencioso e silenciador, em relação à historiografia que não condiz com seus recortes ou prioridades, quanto aqueles que acusa de quererem aparecer como donos da verdade, de agirem como crianças emburradas que, sendo donas da bola, só permitem entrar no jogo quem elas escolhem.
Nesse sentido, esse relativismo cético termina por desembocar em sua principal fragilidade: a de não possuir em eixo seguro que lhe proporcione consistência. Fadado a infidáveis contradições, tais quais as de Hayden White, dos desconstrucionistas radicais ou do autor citado, adquire um tom irresponsável, que ao leitor mais atento, pode ser revelado simplesmente por uma confrontação de textos na qual se meça o que foi dito/especulado teoricamente e o que se tem praticado. É preciso, realmente, refutar esse ceticismo, dito pós-moderno, discutir seus limites políticos, morais e cognitivos, como colocou Ginzburg, e perceber que o que norteia os passos do historiador nas trevas que repousam o passado, é antes de tudo uma busca cognitiva, do que uma poética do absurdo, que talvez esteja mais a favor de uma safadeza retórica do que, propriamente, leituras safadas.


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Campina Grande as vésperas do 2o. turno...

É incrivel como o sociólogo Georges Balandier está com toda razão quando evoca o cárater teatral, na obra "O poder em cena", das manifestações políticas das sociedades ocidentais. Campina Grande, a província que tem aspirações metropolitanas, em muito incorpora, nos dias que antecedem, e mais ainda, na data das eleições, essa carnavalização grotesca e bizarra que visa a preservar ou derrubar um governo existente.
No cotidiano da cidade, são apresentadas diante dos olhos daqueles que tem um pouco de bom senso, um espetáculo do absurdo, que vai desde a compra descadarada de votos, o envolvimento das forças policiais que estão agindo em nome do Governo como verdadeiros cabos eleitorais (essa semana, um escandâlo implodiu: um ambulante que tocava em seu som uma música provocativa cuja letra possui trechos assim: "Lá vem o gordo barrigudo embolando pelo chão/ com Cássio Cunha Lima com o chicote na mão"... chegou as vias de ser preso pela PM, por causa da manifestação e poderia ter sido, se a população que estava na hora do incidente, não tivesse se revoltado contra a truculência dos PMs e impedido o abuso de autoridade).. falo particularmente nesse absurdo porque, se fosse por isso, quero que meu vizinho, que possui um lava-jato aqui na Liberdade, também seja preso, pois nos finais de semana incomoda toda a vizinhança, com um som altíssimo, tocando uma música com o seguinte jargão: "Lá vem o cabeludo correndo da multidão/ pega essa ladrão, esse enrolão"... sei não, a "letra" é nesse tom... tão provocativa quanto a que chama Rõmulo Gouveia, o gordo, de mulher submissa... portanto, prendam logo num estádio toda a populaçáo de Campina Grande que escuta essas duas porcarias e as usam para acirrar os ânimos entre os que estão com o atual prefeito, Veneziano, o cabeludo, que possui a acessoria mais arrogante do mundo, formada por meia dúzia de egos presunçosos da universidade, e os que querem ceder o poder aos coroneizinhos da oligarquia Cunha Lima novamente.
Pois é, a mentalidade dos campinenses é meio confusa... se por hora, a maioria celebra um viaduto construido na cidade que não serve para absolutamente nada... que só serviu para encher os bolsos de dinheiro público do seu realizador, criticam o sistema de integração de ònibus feito pelo prefeito, que é uma verdadeira revolução na cidade, pois até onde eu saiba, a administração dos Cunha Lima, apadrinhada por empresários da rede de transporte coletivo, só se preocupou em aumentar passagens, nunca em facilitar a vida dos usuários do transporte público. Em João Pessoa, Ricardo Coutinho realizou esse projeto de forma magistral e é notável como ganhou a adesão da população, que com certeza é menos encabestrada.
Não digo aqui que o prefeito seja um santo, apesar de aparecer no programa eleitoral com a música de fundo sendo idêntica a da "Paixão de Cristo". Faltou esquecer um pouco aquela palhaçada que os evangélicos estão fazendo aqui nos dias de carnaval, a "Consciência Cristã", para atacarem os frequentadores do "Encontro da Nova Consciência" e ver mais esse lado alternativo da cidade, que necessita de investimentos também.
Fico por aqui, a minha opinião é que, qualquer um sabe, que estruturalmente, Campina Grande melhorou e em muito nesses quatro anos. Mas esse continuismo da mentalidade que prevaleceu na funesta ditadura militar, na qual só se investiam em obras faraônicas, não é suficiente para resolver o que temos de mazelas em termos sociais. Como já disse, aqui o que motiva as pessoas a efetuarem prisões, a brigarem nas ruas, a se provocarem e a praticarem toda uma sorte de hostlidades umas as outras em tempos de pleito político é mais interesses pessoais do que qualquer ideal democrático...
Para mim, álias, o mais rídiculo de tudo é ver um cientista político dando entrevista aqui, vomitando uma série de dados estatísticos, se achando o próprio gurú da racionalidade científica: a mãe diná das porcentagens: "fulano de tal tem 50% de chances de perder, cicrano, com 40% de eleitores, não é democrático, blá, blá, blá...". Enquanto isso, pelo menos, na historiografia, há mais de 3 décadas que já se percebeu que a abordagem serial e quantitativa, estruturalista, não resolve ou não ajuda muito a solucionar os problemas das disciplinas que giram em torno das humanidades. Enfim, por favor, que chegue e acabe logo de uma vez o 26 de outubro, porque paciência tem limite...

Escolham aí: o candidato das melenas sedosas...


... ou o candidato da Vila do Chaves, Sr. Barriga:

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O cotidiano de um mesário nas eleições municipais campinenses


Saudações! Segunda-feira... Um dia depois dessa grande palhaçada que são as eleições brasileiras veio-me o repente de escrever algo sobre minha primeira experiência enquanto mesário, especificamente presidente de sessão. O 5 de outubro começou pra mim as 05:40 hs. Acordei, tomei um banho quente e resolvi ir até a feira popular que fica aqui perto do apartamento que moro comer algo. Cheguei para a moça de flácidas dimensões que vende comida em um quiosque na feira e pedi algo que para mim já é considerado uma refeição matinal e tanto: cuzcuz com carne moída com um copo de café. Nesse interim, chega um cara e senta do meu lado com bigode grande, chapéu de cowboy, botinas surradas e pede, como café da manhã, um prato de cuzcuz com mocotó de boi, ou seja, cuzcuz com a musculatura da perna do boi cozida: uma comida conhecida por "levantar até defunto" e uma dose de whiskey. Prontamente a moça lhe informou que nesse dia não poderia vender bebidas alcóolicas, mas mesmo assim ele não quis substituir a bebida pelo café: comeu tudo secamente mesmo.
Agora era hora de me dirigir até a sessão eleitoral que fui gentilmente convocado para trabalhar. Segundo a port(c)aria judicial que chegou até minha pessoa "o faltoso a reunião incorrerá nas penas do art. 347 do Código Eleitoral (Crime de Desobediência). Pena: detenção de 03 meses a 01 ano e pagamento de 10 a 20 dias de multa". Ainda se fala em democracia brasileira... Realmente, se qui existisse alguma forma mínima de democracia, a designação dos mesários seria feita de forma voluntária, não por meio de decretos terroristas e autoritários. Na entrada do colégio estadual de Campina Grande chamado Félix Araújo, nome de um prefeito que foi assassinado por um puxa-saco dos Cunha Lima, que álias, já é uma prática comum deles atirarem em seus desafetos, fiscais da oligarquia Cunha Lima e da Maranhista tumultuavam a entrada e enfrentavam aos berros um policial militar. Não quero saber... dei umas cotoveladas em uma côroa de amarelo que estava se acabando na minha frente e um chega pra lá em um cara de gravata vermelha e passei pelo policial.
Entrei na sessão com o material da eleição. Bem, uma das fiscais foi uma aluna que tive quando lecionava em uma escola pública da cidade, experiência que consistiu em uma das minhas grandes decepções educacionais... Chamei os outros mesários para lhes dar 15 reais a cada um: trata-se da generosa quantia que o TRE cede para quem trabalha (é explorado) pela justiça eleitoral. O secretário de sessão, que regula o fluxo de entrada de pessoas na sessão, era especialmente patético. De blusão de time de futebol americano, boné de grife e óculos rayban e tênis de jogador de basquete, parecia uma vitrine de uma loja vagabunda. "Diabos, hoje o dia vai ser longo..." pensei. Na lista de presença de mesários, tinha a pergunta: "deseja trabalhar novamente?". Caso a resposta fosse "não", tinha de justificar. Coloquei que "não", é claro, na hora de justificar, pensei em colocar: "não acredito na democracia brasileira, acho tudo uma palhaçada e não quero contribuir para que, nesse circo de horrores, os ricos fiquem cada vez mais ricos e os pobres mais pobres"... dar uma de Lima Barreto. Mas não fui tão espirituoso. Coloquei que no dia das eleições queria ficar livre... livre para nem ir votar, quanto mais trabalhar...
08:00 horas: começa o fluxo de pessoas na sessão e o serviço é simples: trata-se de digitar o número do título das pessoas e liberar a urna eletrônica para elas votarem. De vez em quando apareciam umas figuras folclóricas dado o ar da graça, completando toda a palhaçada. Um cara de uns 40 anos com uma senhora veio votar. Visivelmente tratava-se de alguém com problemas mentais. Ele não conseguia finalizar o voto e aí a velha esbravejava contra ele, do meu lado: "aperta o 15, idiota! o 15!". Antes que ela batesse nele, eu disse: "senhora, é proibida qualquer manifestação partidária nessa sessão"... é cada situação que colocam a gente, em nome de abstrações e de discursos esvaziados...
O freak show continuou das 08:00 até as 17:00 horas. Quando finalizou tudo, a urna vomitou os boletins com os resultados. não via a hora de entregar tudo a um oficial de justiça que estava presente no local e ir pra cara. Nas ruas, senti saudade da tranquilidade da escola. Os dois lados que disputavam o poder comemoravam. Em Campina GRande, tudo é motivo para carnaval, embora não seja o RIo de JAneiro. Pessoas enroladas em bandeiras amarelas e vermelhas pulando e em torno de carros equipados com sons monumentais tocando músicas provocativas. De uma hora para outra, a cidade me lembrou um pouco do ambiente propício as barricadas parisienses... tensões sociais por todos os lados. MAs esse pessoal só consegue criar situações assim quando benefícios e interesses pessoais são ameaçados. Não via a hora de chegar em minha casa, ligar o computador e terminar aquele dia exaustivo jogando ManHunt, um jogo no qual você é o protagonista de um reality show onde tem que matar uma série de desasjustados, entre punks, loucos, psicopatas, mexicanos, policiais etc. que te caçam pelas ruas para que um diretor faça uma serie de filmes snuff. Jogando ManHunt, na pele do psicopata Cash, pensei: "a pessoa que bolou essa trama e a equipe que conseguiu realizar esse jogo, com essa perfeição e todas essas mortes sórdidas, executadas com tacos, martelos, cacos de vidros, arames, armas etc. me faz ainda ter um pouco de fé na humanidade"...


Éis algo construtivo, na linha ManHUnt, que poderíamos
fazer com alguns políticos brasileiros.

terça-feira, 24 de junho de 2008

As pérolas de Ana Luísa Bartholomeu da UOL sobre o São João campinense


Bem, todo mundo sabe que não sou muito fã de Durval Muniz Albuquerque Jr. e seu pós-modernismo historiográfico, mas vez por outra, é inevitável cita-lo no que diz respeito ao seus estudos sobre "A invenção do Nordeste", livro que lança uma reflexão sobre os processos discursivos na política, nas artes e na literatura que construiram essa noção de um Nordeste atrasado, miserável e arcaico. Pois bem, é nesse sentido que lembrei desse livro, que hoje em dia é bem básico nas disciplinas sobre História Regional e Local dos cursos de História nordestinos ao ler as pérolas escritas sobre o São João em Campina Grande pela enviada da UOL Ana Luísa Bartholomeu.
Sendo bastante generoso com as colocações da réporter, podemos dizer que, por vezes, ela chega a perder o senso do rídiculo defendendo uma visão de Nordeste ainda tão atrasado, preso a imagens coloniais tão barrocas e arcaicas quanto os preconceitos e a exotização que infestaram tanto a sua cabecinha que ela ficou aparenta ter ficado muito decepcionada ao constatar que aqui em Campina Grande existe BMW, internet, shopping, favela, politicagem, etc. É claro que deve ser ponderado que sendo uma cidade com cerca de 400 mil habitantes, Campina Grande tem a dimensão que alguns bairros em São Paulo tem, mas que é uma cidade que tem destaque internacional, sobretudo, não só por essa festa megalomaníaca, que tem mais finalidades políticas do que propriamente preocupações com tradições culturais, mas por exportar softwares pro mundo todo e contar com cursos de graduação que não devem nada aos de cidades maiores, reebendo estudantes do Brasil todo em suas universidades.
Mas, sem mais delongas, vamos analisar algumas pérolas escritas pela ilustre visitante:

23/06/2008 - 09h20

Tradição perde espaço para a modernidade no 'São João' de Campina Grande (PB)

Ana Luisa Bartholomeu
Enviada especial do UOL
Em Campina Grande (PB)

O fato de "São João" está entre aspas já é uma provocação um tanto quanto de gosto duvidável, porque o que será que Ana Luísa entende por São João? Vamos procurar captar nas suas próprias palavras:

"O forró eletrônico é o estilo que mais toca nos alto-falantes. Pelas vielas do Parque do Povo (o coração da festa), espalham-se estandes de vendas de equipamentos eletrônicos e barracas promocionais de patrocinadores. No figurino dos freqüentadores, a ordem é esquecer o vestido xadrez e o chapéu de palha em casa. Meninas usam salto alto e fino, enquanto os garotos calçam tênis, jeans, camiseta e boné. A fogueira, símbolo maior das comemorações juninas, é grandiosa: tem 20 metros de altura. E seria mais se não fosse por um 'detalhe': é iluminada artificialmente." In:http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2008/06/23/ult5772u152.jhtm

Bom, realmente, a cronista que saiu do centro urbano, da grande metrópole, esperava chegar a longiqüa terra e encontrar os nativos todos a cárater no melhor do estilo Mazzaropi, todos caipirões convictos, de roupas xadrez, botinas, dentes podres e chapéu de palha, que não são esquecidos em casa... quem usa chapéu de palha são os agricultores situados na zona rural do Nordeste, que precisam executar seu labor debaixo de um sol causticante. Mulheres usam sapatos alto e fino, homens usam jeans e tudo mais... Só faltou ela também mencionar que as pessoas também esqueceram as latas de água que deveriam levar na cabeça em casa também. A única definição para essas cobranças de um regionalismo que tem coerência apenas na cabeça de Ana Luísa Bartholomeu é que são rídiculas. Quanto a fogueira... talvez na falta do que falar, resolveu mencionà-la... trata-se de um adereço simbólico... É, Ana Luísa, os nativos exóticos campinenses não seriam assim, tão jecas-tatus, a ponto de fazer, toda noite, uma fogueira real de 20 metros, onde estão concentradas milhares de pessoas... Seria algo tão estúpido quanto você esperar uma fogueira de verdade de 20 metros em um perímetro lotado de gente. Se quiser ver gente assando milho, soltando fogos em volta de um a fogueira, vá aos bairros onde as pessoas acendem pequenas fogueiras e se reunem em volta com a família. O contexto do Parque do Povo é outro...
Bom, procurem vocês mesmos ler os artigos de suma importância jornalística da eloquente culturalista Ana Luísa Bartholomeu... para ser sincero, ser jornalistas desse porte estão trabalhando em grandes empresas de informação, talvez o jeca-tatu aqui, que não anda de chapéu de palha ou roupa xadrez, tenha que enfatizar que as afirmações dessa réporter são totalmente estúpidas, idiotas e até escrotas. Um pouco mais de informação e de atualização seria pertinente para a moça. Afinal, só para encerrar o post enfatizando o anacronismo de suas pré-formulações sobre o que seja são joão em Campina, vale ressaltar que não estamos mais no Nordeste do século XVIII, não é?! Portanto, como diria E. P. Thompson, as tradições foram feitas para serem re-inventadas.




quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sobre anônimos e o anonimato


Bom, devo frisar bem antes de minha argumentação é que o que mais gosto de fazer com uma "crítica" é respondê-la. Afinal, tudo continua sendo balela ainda... Para começar, deveria ser eliminado este escudo de toda patifaria literária chamado anonimato. Nas revistas literárias ele foi introduzido com o pretexto de proteger os boçais críticos, os vigias do público, contra a ira dos autores e de seus protetores. Só que, a cada vez que se apresentar um caso desse tipo, houve centenas de outros em que o anonimato serviu apenas para tirar toda a responsabilidade daquele, nesse caso, daquela, que não pode defender o que afirma, ou até mesmo para ocultar a vergonha de uma pessoa que é suficientemente corrupta e indigna a ponto de precisar falar de modo velado. Muitas vezes, e acredito que principalmente nesse caso, o anonimato serve apenas para camuflar a obscuridade, a insignificância e a incompetência da crítica. É incrível o descaramento de certos tipos que não recuam diante do rídiculo quando estão em segurança, nas sombras do anonimato.
Vamos lá: velhaca diga seu nome! Pois atacar encapuzada e disfarçada as pessoas que passeiam mostrando seus rostos não é algo que uma pessoa ética faça. Frisando bem: apenas patifes e canalhas agem assim. (Probatum est - está provado).
Rousseau já disse, no prefácio para o ro mance Nova Heloísa: "tout homme doit avouer les livres qu´il public", ou seja, todo homem honesto deve assinar os livros que publica. A afirmação vale mais ainda para opiniões polêmicas. Nesse caso, um adversário que mostra sua cara abertamente é uma pessoa honrada, moderada, com a qual seria possível até um relativo entendimento ou um acordo; em compensação, uma adversária escondida é uma patife covarde, que não tem a coragem de assumir seus julgamentos, portanto alguém que não defende sua opinião, mas se interessa apenas em descarregar sua ira sem ser reconhecida, ou sofrer retaliações. Afinal, seria tolerável se uma pessoa mascarada provocasse o povo, ou quisesse discursar diante de uma multidão? E nesse caso, atacando e cobrindo os escritos de outra pessoa de censuras? Será que seus passos em direção a porta dos fundos não seriam pertinentimente apressados por alguns justos pontapés no seu traseiro?
Um "crítico" anônimo é um sujeito que usa da estratégia execrável de atacar escritos de outra pessoa que não escreveu anonimamente. É simplesmente uma pessoa que não quer assumir o que diz ou o que deixa de dizer ao mundo acerca dos outros e seus trabalhos, por isso não assina. Todas as falas anônimas são suspeitas e carregadas de falsidade e hipocrisia. Nesse caso, o anonimato não é a fortaleza segura de toda patifaria pseudo-literária e pseudo-intelectual? De minha parte, prefiro estar bêbado e sequelado em uma casa de jogos ou de um bar medíocre a andar por aí dando uma de crítico anônimo.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O que faz do brasil, Brasil?


O que faz do brasil Brasil? Essa é a pergunta que Roberto DaMatta se propõe a responder e que o professor da disciplina "Cotidiano e lazer nas cidades", no mestrado, propôs que eu e os outros estimados colegas respondêssemos. O olhar antropológico de R. DaMatta sobre esta questão possue uma maior autonomia em relação aos questionamentos históricos que vem a minha cabeça quando encaro o título de seu texto. A idéia que de que a história social oferece uma visão “exclusivamente oficial e bem-comportada” (DaMatta, 2001, p.13-4) sobre essa questão da identidade nacional me fez remeter aquela velha discussão de que as vezes um diálogo entre historiadores e sociólogos parece um diálogo entre surdos mudos.

Pensar nas sensibilidades que conseguem untar em torno de alguns valores em comum, como o gosto pelo carnaval, futebol, praias, samba, etc. toda uma nação vasta, fragmentada e heterogênea em termos culturais como o Brasil é realmente algo complexo. Para mim, espécime de desajustado cultural então, que cultiva um verdadeiro pavor de carnavais, torcidas organizadas, exposição direta ao sol e a grupos musicais com mas de 5 integrantes ser brasileiro não se restringe a alguns paradigmas estabelecidos por um comportamento massificado.

Para DaMatta, ter “gosto pelas artes plásticas, visita sistemática a museus, amor pela música clássica, na falta de riso nas anedotas, no horror ao carnaval e ao futebol “ (DaMatta, 2001, p. 18) são padrões estranhos e incoerentes com a cultura e identidade brasileira. Nesse sentido, se o que nos faz sermos brasileiros é consumir cultura massificada, ter asco da história, estar sempre rindo, indo a estádios e bailes carnavalescos não precisaríamos de um nativo para falar isso, pois vários pensadores eurocêntricos já nos descrevem assim no dito velho mundo.

Para mim, ser brasileiro tem uma dimensão mais aberta... Ser brasileiro é o que me possibilita tomar um café forte ao acordar, discutir cultura francesa com colegas de ofício a tarde, almoçar uma feijoada e a noite tomar uma cerveja em um show de rock cantado em inglês. Em outros termos, é poder desfrutar de um cosmopolitismo sadio, realizador, com as vantagens e delícias de nossa cultura, mas sem me submeter a estereótipos que por mais nativistas e bem intencionados que possam parecer, espécie de auto-ajuda intelectual, acabam reproduzindo uma construção determinista e muito fechada sobre a identidade que em nome de um popularismo ingênuo, transforma estereótipos negativos em virtudes.

REFERÊNCIAS:

DAMATTA, Roberto. O que faz do brasil Brasil?. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

terça-feira, 11 de março de 2008

A tia não gosta de punks


Caminhando pela universidade me deparo com um cartaz colado na parede de um dos halls da instituição com os avisos de uma mostra de vídeos sobre a questão judaica-palestina, uma oficina de comida vegetariana e de um show, ou no dizer dos punks, uma gig, de algumas bandas locais aqui em Campina Grande, no último domingo, dia 09 de março. "Parece interessante", pensei em relação a gig, que no caso, foi o que mais me chamou a atenção.
Acabei entrando em contato com vários amigos e convidando-os a comparecerem também ao evento, já que seria uma boa oportunidade pra tomarmos algumas cervejas, darmos umas risadas e escutar alguma coisa pesada. No dia da gig, antes de ir pro evento, resolvo dar uma conferida no orkut e tem lá o aviso de Rafael, punk daqui, falando que o show não seria mais no antigo cercado, um bar que reunia o público mais ou menos arrojado da cidade que se identificava através das tribos que estavam integrando e sim, no BAR DA TIA, um boteco de primeiro andar situado próximo ao "cercado", mas sem nehuma tradição alternativa. se é que podemos dizer que em Campina Grande existe alguma.
Acabou que no dia não apareceu ninguém que eu tinha chamado e eu nem sei como, mas convenci minha namorada de ir comigo, logo ela que não é muito chegada nessas tendências mais radicais de música. Lá estava tocando a C.U.S.P.E, banda anarquista levada a frente pelo professor de Antropologia da UFCG, Rogério Zeferino. Letras bem políticas, direcionadas para um ideário libertário, no sentido político do termo. O som é hardcore, com alguns riffs mais lentos, alternados, as vezes. A banda não tem ouvintes somente entre punks, raw punks, hardcore punks, anarco punks, queer punks ou sei lá mais que porra queiram denominar de punk por aí. Alguns headbangers davam uma conferida no som. Em seguida, a banda Aero Venena começou a tocar... foi nesse interim que, ao ir deixar minha namorada no ponto de ônibus, quando voltei, depois de uns 30 minutos, me deparo com o local do show esvaziado e se no andar de cima do bar antes tocavam punks, dessa vez tocava um grupo de pagode formado por típicos campinenses embriagados após um jogo de futebol local. "A rotatividade de estilos por aqui anda alta", pensei; Depois fiquei sabendo que a dona do bar, a tia, ordenou que parassem toda aquela barulheira, que ninguém estava consumindo bebida do bar e, portanto, não tinha motivos para suportar toda aquela afronta que eram os punks com seus moicanos, rebites e pileques. Bom, isso é verdade... geralmente, punks não tem dinheiro pra tomar cerveja a 2,50 em um bar. Que seja... Afinal, a tia não curtiu o som, não virou anarquista e muito menos abriu mão de seu pagode dominical. Creio que temos muito a refletir sobre isso.


P.s.: Se o rapaz de baixo estivesse no show, talvez a tia pensasse duas vezes antes de acabar com a festa, eu acho.