

Um desses gurús do discurso, publicou mais recentemente o texto "Por uma leitura safada deThompson", uma crítica a um importante historiador inglês que desde o começo disse estar comprometido com essa denominado história vista de baixo, ou seja, a história social.
Essa idéia de "leitura safada", segundo Durval Muniz, autor do texto, baseia-se na premissa de que os autores devem ser dessacralizados, na esteira do que afirmou Roland Barthes. Confrontei essa sua afirmação com outro texto seu, chamado "A história em jogo: a contribuição de Michel Foucault no campo da historiografia", e é impossível levar a sério essa idéia de leitura safada de Thompson, pois munido de uma série de argumentos que beiram ao irracionalismo estético, Durval Muniz ergue, ao mesmo tempo, um altar de veneração e um pódio para coroar seu campeão favorito, ao passo que para os outros competidores, derrotados, só restaria aplaudir o filósofo Michel Foucault, pois ele é, segundo o autor, “da genealogia dos craques, dos fora de série, daqueles que, mesmo quando são nosso adversário, só nos resta sentar e aplaudir”.
Isso significa constatar que toda essa ousadia dessacralizadora, reivindicada por Durval Muniz, tem uma conotação e limitação mais pessoal, do que propriamente epistêmica. Seus ídolos teóricos, caso existisse alguma coerência em sua fala, deveriam então ser os primeiros a serem submetidos a essa sanha desconstrucionista, a esse exercício intelectual violador. Quem quiser ganhar visibilidade através de polêmicas sensacionalistas, que arque com as conseqüências daquilo que falou e tenha o mínimo de coerência com suas próprias posições. Mais uma vez, percebe-se que Durval Muniz é tão tendencioso e silenciador, em relação à historiografia que não condiz com seus recortes ou prioridades, quanto aqueles que acusa de quererem aparecer como donos da verdade, de agirem como crianças emburradas que, sendo donas da bola, só permitem entrar no jogo quem elas escolhem.
Nesse sentido, esse relativismo cético termina por desembocar em sua principal fragilidade: a de não possuir em eixo seguro que lhe proporcione consistência. Fadado a infidáveis contradições, tais quais as de Hayden White, dos desconstrucionistas radicais ou do autor citado, adquire um tom irresponsável, que ao leitor mais atento, pode ser revelado simplesmente por uma confrontação de textos na qual se meça o que foi dito/especulado teoricamente e o que se tem praticado. É preciso, realmente, refutar esse ceticismo, dito pós-moderno, discutir seus limites políticos, morais e cognitivos, como colocou Ginzburg, e perceber que o que norteia os passos do historiador nas trevas que repousam o passado, é antes de tudo uma busca cognitiva, do que uma poética do absurdo, que talvez esteja mais a favor de uma safadeza retórica do que, propriamente, leituras safadas.







